As palavras que mais importam — por que a frequência decide o que aprender primeiro
Mil palavras bem escolhidas carregam a maior parte da fala cotidiana. A ordem em que você aprende as palavras importa mais do que quantas aprende. Eis a aritmética, e como usá-la.
Toda língua tem centenas de milhares de palavras. Ninguém conhece todas, nem os falantes nativos, e ninguém precisa. O que quem aprende precisa são os poucos milhares certos — e quais são não é questão de gosto. Foi contado.
A aritmética da frequência
Pegue qualquer corpo grande de texto — jornais, conversas, legendas — e conte quantas vezes cada palavra aparece. O resultado tem sempre a mesma forma: um punhado de palavras usadas o tempo todo, depois uma longa cauda de palavras raras.
Em inglês, as 100 palavras mais frequentes somam cerca de metade de tudo o que se escreve. As 1.000 famílias de palavras mais frequentes cobrem uns 80 por cento de um texto comum; 2.000 cobrem algo como 85–90 por cento da conversa do dia a dia. Depois disso, cada mil a mais acrescenta só um ou dois pontos.
A mesma curva vale para alemão, espanhol, georgiano, coreano — os números mudam um pouco, a forma não. É a lei de Zipf, e para quem aprende ela diz uma coisa: as primeiras duas mil palavras valem mais do que as vinte mil seguintes juntas.
Como se sente a "cobertura"
Oitenta por cento de cobertura não significa entender 80 por cento do que as pessoas dizem. O sentido costuma estar nas palavras mais raras: dá para conhecer cada palavra de "o ___ foi ___ pelo ___" e continuar perdido.
Mas significa que a frase tem uma armação a que se segurar. Você sabe onde está o verbo, o que é feito a quê, mais ou menos se é bom ou ruim. A partir dessa armação você adivinha a palavra que falta, pergunta por ela ou procura — e procurar uma palavra numa frase que você entende no resto é a forma como o vocabulário cresce sozinho.
Com 40 por cento de cobertura não há armação. Cada frase é ruído, e nada gruda.
A ordem errada sai caro
A maioria dos livros didáticos e guias de conversação começa por temas: "No aeroporto", "Cores", "A família". Parte disso é frequente — mãe, água, bom. Muito não é. Esteira de bagagem, turquesa e sobrinho são palavras perfeitamente reais que você encontra poucas vezes por ano, e cada uma leva tanto tempo para aprender quanto porque, que você encontra cinquenta vezes por dia.
Aprender por temas parece organizado. Aprender por frequência é o que de fato encurta o tempo até conseguir acompanhar uma conversa.
Como o Mullawo ordena o baralho
Cada palavra do dicionário do Mullawo tem um ranking de frequência, tirado de grandes corpora de inglês cotidiano e aplicado às traduções nas 30 línguas. Cartões novos são distribuídos nessa ordem: os cem primeiros que você vê são as palavras que vai encontrar nos primeiros cem minutos de fala real.
Duas coisas suavizam o ranking puro, de propósito:
- O conjunto gratuito é escolhido à mão, não é o top 50 por ranking. As palavras mais frequentes de qualquer língua são o, de, e — reais, úteis e inúteis como primeiros cartões. O baralho inicial são cinquenta palavras concretas e frequentes: água, casa, comer, bom.
- Homônimos são separados. Train substantivo e train verbo são dois cartões com dois rankings, porque são duas palavras em cada língua que você aprende.
O que fazer com isso
- Confie na ordem. A vontade de pular para as palavras que você quer — do seu trabalho, do seu hobby — é forte e, no primeiro mês, quase sempre errada. Adicione como palavras próprias se quiser, mas deixe o baralho por frequência correr.
- Não pule as chatas. Também, ainda, já, sempre são as palavras que seguram as frases; sem graça como cartões e valiosíssimas na fala.
- Conte cobertura, não cartões. Mil palavras frequentes são um marco com significado: agora você acompanha a armação da maioria das frases. Mil palavras aleatórias são só um número.